sexta-feira, 22 de abril de 2011

Dia 22 de Abril

Hoje decidi debruçar a minha escrita sobre uma coisa que fiz: missa de 6ª feira santa.

A missa de cá tem as suas diferenças ou hoje era um dia especial, também pode ser isso. Não sei se no passado já tinha ido alguma vez à missa de 6ª feira santa mas eu já não me lembrava de nada, desde o beijar a cruz à procissão de Jesus deitado...

A missa por momentos faz-me lembrar uma missa em Moçambique, principalmente pelas horas que demorou, 3 horas... Eu não percebi nada do que diziam porque foi toda em Tamil mas sentia-me bem e não era pela música porque esta não existe, existe mas é um cd que passa com alguém a cantar muito mal, ainda diziam que nós na EA cantávamos mal...

Voltei a reparar que aqui as mulheres usam um véu na igreja, algo como se usava em Portugal no passado, ainda não percebi se é uma questão de estética ou simplesmente respeito. E fiquei também a pensar se há alguma idade ou estatuto para usar, pois vi crianças com e sem véu, vi mulheres com e sem véu... Um dia vou perguntar isso.

Dou por mim a pensar que se eles estão a rezar e estamos na igreja católica romana, isto é fruto da presença dos portugueses, Portugal foi um dos pioneiros para a expansão da fé católica no mundo. Houve coisas muito más que fizeram e no qual não me orgulho mas ver isto faz-me pensar que também deixamos algo muito poderoso...

Vejo as pessoas muito ligadas à igreja e com uma postura e fé que é raro ver em Portugal... Aqui vemos desde as crianças, aos jovens, aos pais, aos avós, estão todos na igreja e não vejo os mais novos obrigados a vir, vejo que estão porque querem. Quantos de nós na altura da catequese ficávamos fulos com os nossos pais que nos obrigavam a ir? Acho que isso levou a que muitos dos jovens portugueses ficassem 1 pouco mais afastados da igreja, uma das razões, penso eu.

Eu tento passar despercebido na igreja, digo sempre ao Jude, o rapaz que trabalha no staff e que me acompanha sempre, para ficarmos no último banco, fazemos por tudo para chegar mesmo em cima da hora e sair antes das pessoas mas é muito dificil pois quando se vai comungar até o padre fica a olhar. A falar em comunhão, aqui ainda se vai com a "boca à hóstia", explicando melhor, em Portugal tem sido mais normal ver as pessoas receberem a hóstia na mão, uma questão de higiene, penso eu, aqui ainda é como nos velhos tempos.

Hoje havia o beijar a cruz e depois de sair do meu lugar, muito descontraído a ir para a fila, o Jude olha para mim e para os meus pés e diz que não posso ir calçado, que é para ir descalço, fiquei naquela, meio atrapalhado e descalcei-me mesmo ali na fila, meti os ténis de lado e fui de meias, claro que os mais novos riam-se, um branco com os pés pretos.

Aqui as crianças também não estão habituadas a ver brancos, também ficam com aquela cara de medo e algumas até choram, outras até acham piada e mexem na barba, na pouca que tenho, é claro =).

Missa terminou e no final houve uma procissão de Jesus à volta da igreja que depois acabou à frente da igreja e as pessoas passavam por baixo dele antes de entrar de novo na igreja, isto também se faz em Portugal?

Como ainda havia tempo antes do jantar, fomos até casa do Jude, estava lá a familia toda: pai, irmãos, cunhada, sobrinho e um amigo de família. As mulheres da família faleceram no tsunami de 2004, ainda não tive o a vontade para falar nisso com ele.

Pouco depois de entrarmos em casa começou a chover... Cá quando começa a chover não pára, fui ficando ficando até parar...

Foi a 1ª vez que vi TV em Batticaloa e nada melhor do que ver um jogo de cricket... Eu não percebo mesmo nada daquilo e comecei a fazer perguntas atrás de perguntas sobre aquilo, tenho interesse em saber como se joga e como são as pontuações, é que aqui o desporto rei é o cricket. Eles lá tentaram-me explicar o cricket, fui percebendo algumas coisas, agora o melhor mesmo é praticar e perguntei quando é que me mostravam como se joga, acho que Domingo Sri Lanka irá conhecer um grande jogador de cricket =)

Já que tinha tempo, a chuva não parava, pedi para escreverem o meu nome em Tamil, tenho comigo, tenho que tirar depois uma foto para vos mostrar. Fiquei a saber que têm 246 caracteres, nós ainda nos queixamos do nosso alfabeto...

O tempo melhorou um pouco e vim para casa, o jantar era as 8h e sabia que hoje não estaria sozinho porque havia hospedes, ficaram todos contentes porque pensavam que eram chineses mas afinal eram japoneses, consegui distinguir logo, nem foi preciso abrirem a boca. Fazem parte de uma das igrejas evangélicas e vieram fazer prospecção de mercado para estes lados, estavam acompanhados por um rapaz de Colombo. Falei pouco com eles porque estavam no seu mundo e eu também estava no meu...

2 comentários:

FireHead disse...

Os católicos desses países terceiro-mundistas e de maioria populacional não-católica têm uma Fé de fazer corar os católicos do Ocidente, cada vez mais afastados da Igreja de Cristo e menos católicos, até mesmo anti-católicos. Ainda há que veja a fé como parte da sua identidade. No Ocidente, ao invés, as pessoas partem do princípio que está tudo adquirido, pelo que não valorizam o que têm e muito menos procuram ter o que é importante para a vida e que não têm. Como é o caso da própria Fé.

Um abraço.

Miguel Jarimba disse...

FireHead: obrigado pelo teu comment. Tive a sorte de ter já visto a fé católica em outros locais para além da Portugal e vi aquilo que disseste, há uma fé muito grande nesses locais. Em Pt cada vez as pessoas estão mais afastadas e os escândalos que vão aparecendo também não ajudam mas se cada um pensar naquilo que os motiva, naquilo em que acreditam, os valores, talvez não tivessem tanto medo em assumirem-se como crentes.
Basta fazer essa pergunta às pessoas que passam por ti durante o dia, quantos jovens vão à missa ou simplesmente acreditam? Poucos, muito poucos.